domingo, 27 de junho de 2010

Exorcismo


O nascimento do Diabo
A história da humanidade já começou endiabrada. O mal infligido foi a primeira idéia que passou pela cabeça de nossos antepassados para tentar explicar as doenças – obras malignas de alguma força invisível que interfere no funcionamento do corpo ou da mente. Para curar o enfermo, expulsava-se o agente perverso. E esse era um serviço para alguns dos primeiros médicos do mundo: os exorcistas.
Contudo, o avanço científico revelou explicações menos fantásticas e mais plausíveis para doenças e atitudes esquisitas. No lugar da legião de Lúcifer, organismos microscópicos assumiram o papel de principais culpados pelos males dos mortais. “Muitas alegações de possessão passaram a ser diagnosticadas como distúrbios emocionais, pesadelos ou doenças mentais – como a esquizofrenia, que provoca alucinações e delírios”, diz Maciel Santos da Silva, parapsicólogo que integra um grupo interdisciplinar da PUC de São Paulo.

O que a Igreja julga inexplicável também é objeto de controvérsia. “Um indivíduo epiléptico, por exemplo, pode ter uma convulsão e adquirir grande força”, diz o médico André Perdicaris, da Universidade Católica de Santos, especialista em sintomatologia. “Ele pode apresentar espasmos musculares capazes de gerar uma energia além do normal. E isso não é possessão.” Há ainda na literatura médica o fenômeno chamado sansonismo (sim, derivado de Sansão): ele ocorre quando uma pessoa, em momentos de tensão, consegue reunir todas as suas forças. “Um grupo de 5 enfermeiras teria dificuldade para segurar uma menina nesse estado”, diz o padre jesuíta Oscar Quevedo, estudioso de fenômenos paranormais. Segundo ele, alguns relatos podem ser ainda mais exagerados que a força do suposto possuído.
Na possessão coletiva em Loudun, por exemplo, a confusão com doenças pode ter sido a regra. O show de insultos e obscenidades corresponde a um distúrbio chamado coprolalia – é assim que a psiquiatria chama a compulsão mórbida por falar palavrões e baixarias em geral. Já as caretas horrendas eram, possivelmente, um sintoma da doença de Huntington – um distúrbio cerebral que provoca movimentos bruscos freqüentes e irregulares do tronco e de membros. Entre as características das pessoas “possuídas” por esse mal estão as contorções faciais, os gemidos, a fala desarticulada e um jeito de andar bastante peculiar, como se o indivíduo estivesse dançando.
A habilidade de falar em línguas desconhecidas está catalogada na literatura médica: seu nome é glossolalia. Sabe-se que pessoas submetidas à hipnose se lembram de palavras ou frases estrangeiras ouvidas no passado – e aparentemente esquecidas. Só que, até agora, nunca foi provado que alguém pudesse falar um idioma sem ter tido algum contato com ele. “No caso do garoto Robbie, que inspirou o filme O Exorcista, há relatos de que ele falava palavras em latim”, diz Maciel dos Santos Silva, da PUC-SP. “Mas um dos exorcistas notou que as frases constavam do próprio ritual de exorcismo que estava sendo empregado nele.” Palavras em outras línguas poderiam ficar armazenadas em alguma gaveta escondida no fundo da mente e voltar à tona de vez em quando. “Podemos estar ouvindo uma rádio em outra língua e não prestar atenção, mas nosso inconsciente não deixa escapar nada”, afirma Quevedo.
Por trás da discussão fria sobre patologias e seus sintomas, há portadores de condições mentais ou neurológicas que sofrem preconceito por influência de líderes religiosos – gente que carrega o estigma de ser hospedeiro do Diabo. Os epilépticos são vítimas históricas desse preconceito. “No passado, a epilepsia era freqüentemente confundida com possessão”, diz o neurologista Li Li Min, da Unicamp. Segundo ele, uma convulsão apresenta sintomas que, no passado, podem ter sido considerados sobrenaturais: a pessoa tem movimentos involuntários e repetitivos, pode se despir, gritar e até adquirir uma tonalidade arroxeada – isso porque ela pára de respirar. A questão é que hoje a epilepsia já é uma doença bastante conhecida. “Mas ainda é muito comum a gente ver algumas igrejas exorcizando epilépticos”, afirma Min.
Aos olhos dos céticos, essa ampla oferta de rituais só existe porque há uma demanda perene por eles. Uma explicação possível para essa popularidade é o alívio que o exorcismo traz – ele pode ser simplesmente uma maneira confortável de lidar com os próprios defeitos. “Em vez de imaginar que têm culpa pelo que está acontecendo, as pessoas preferem remeter a uma terceira pessoa a responsabilidade pelos seus tormentos. E isso acaba funcionando”, diz Carlos Roberto Nogueira, historiador da USP. Assim, mesmo o mais simples dos rituais, como o praticado no islamismo, pode ter um impacto reconfortante para o indivíduo. As cerimônias mais espalhafatosas teriam um efeito adicional, o de provocar a catarse. Nesse tratamento, em que drogas também são usadas, aquele que tem problemas com traumas do passado é induzido a revivê-los intensamente. A carga emocional liberada é tão forte que leva a pessoa ao colapso. Depois dessa excitação violenta, ela sente-se livre das preocupações e dos medos antigos.
Acontece que as certezas são sempre frágeis nesse campo. Se a fé não exige provas, a ciência algumas vezes não consegue obtê-las. O comportamento humano é uma área ainda repleta de mistérios a ser desvendados – é nas brechas do conhecimento que se alojam os demônios e outras assombrações. Casos sem explicação racional continuam a acontecer a todo instante, só que não há como atestar a atuação do sobrenatural nessas situações. É uma dúvida do diabo, que promete viver em nossas entranhas por um bom tempo.

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